Uma greve dramática e descontrolada

Países minimamente sérios jamais permitem paralisações que bloqueiam estradas vitais.

Foi chocante ver cenas de animais morrendo de fome ou se canibalizando por falta de ração nas granjas. Uma imensa crueldade num país que tem as melhores condições para produzir alimentos e uma das matrizes energéticas mais diversificadas: petróleo, gás natural, água, sol, ventos e biomassa.

Mas num país tão rico em recursos naturais não precisamos mais do que três dias para começar a faltar combustível e comida, num processo autofágico no qual um setor faz uma greve para tentar solucionar o seu problema e, ao fechar estradas, canibaliza todos os demais, com lances de extremo prejuízo e crueldade.

Estonteado, o governo recorre a medidas paliativas para remendar os equívocos do passado.

Incentivos excessivos para vender veículos no início da década fazem com que a sobra de caminhões nas estradas, após anos de recessão, gere margens negativas nos fretes.

O Estado pesado e ineficiente, incapaz de avançar nas reformas fiscal e previdenciária, tem de recorrer a aumentos sistemáticos dos impostos. Quatro impostos incidem nos combustíveis. É por isso que nossa gasolina e nosso diesel estão entre os mais caros do planeta.

O congelamento populista do preço dos combustíveis no governo petista causou forte prejuízo à Petrobras e detonou o setor sucroenergético. A exemplo da maioria dos países, a variação de preços dos derivados de petróleo seguindo o mercado externo é a escolha correta, que causa menos distorções.

Mas talvez deveria estar acoplada a uma política tributária contracíclica nos combustíveis: aumentos expressivos do petróleo gerariam reduções automáticas dos tributos incidentes e vice-versa. Pesos e contrapesos são fundamentais para o funcionamento da economia.

É imprescindível estimular a produção e a concorrência dos combustíveis, dos fósseis aos renováveis, acabando com o monopólio da Petrobras no refino de petróleo, setor em que o país carece de investimentos. Aliás, passou da hora de privatizar esse paquiderme. Nos anos 1990, Roberto Campos foi nosso Nostradamus falando sobre a Petrossauro, mas ninguém ouviu. Vale resgatar cada um de seus magníficos augúrios.

A greve dos caminhoneiros é mais uma crise que nocauteia a economia, mas que deveria servir para colocar a política pública no rumo certo, em vez de retroceder.

Primeiro, congelar ou administrar artificialmente preços dos combustíveis nunca foi ou será solução. Mas é fundamental encontrar mecanismos transparentes para lidar com flutuações abruptas do petróleo, para cima ou para baixo.

Segundo, não é possível que greves ou protestos, por mais legítimos que sejam, levem a uma baderna generalizada, uma terra sem lei, que para fábricas, afeta a vida dos doentes, mata animais de fome e nos obriga a jogar toneladas de produtos perecíveis no lixo.

Países minimamente sérios jamais permitem greves que bloqueiam estradas vitais, paralisando a economia. Isso é inadmissível e mostra por que Bolsonaro cresce tanto nas intenções de voto, com o seu discurso de uma nota só: “Ordem é progresso”. Não é só isso, mas é o que ele repete, e repete.

Terceiro, é um equívoco achar que a solução do problema está apenas nas mãos falidas e cambaleantes do Estado. Não há dúvida de que a greve tem relação direta com políticas públicas equivocadas. Mas ela já estava anunciada havia tempos, e os interessados do setor privado poderiam tê-la evitado. O frete dos caminhoneiros não deveria ser um problema de Estado, que agora cai nas costas já lanhadas do contribuinte.

A sociedade brasileira continua depositando a solução dos seus problemas no governo, materializado na figura de algum “salvador da pátria” sempre improvisado e imediatista.


(*) Marcos Sawaya Jank é engenheiro-agrônomo e especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

Artigo do Jornal “Folha de São Paulo”, Caderno Mercado, 26/05/2018

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